Filipa Martins: “Tudo parte da memória”

Como o prometido é devido, arrancamos, hoje, com a nova rubrica APRENDER É VIVER

É com muito gosto que partilhamos a nossa conversa com a escritora Filipa Martins que lançou, recentemente, o livro, pleno de sensibilidade e criatividade, verdadeiramente entusiasmante, intitulado “Na Memória dos Rouxinóis”, excelentemente editado pela Quetzal.

A memória é transversal aos seus livros. O que a motiva a escrever sobre a(s) memória (s)?

Tudo parte da memória, pessoal, coletiva, daquilo que vivemos, lemos, ouvimos, memórias nossas ou alheias.

O trabalho do escritor é trabalhar sobre essas memórias, fantasiar.

No fundo, o escritor faz aquilo que qualquer um de nós faz ao recordar.

Não existe essa entidade pura que é a memória, tudo no fundo é fantasia, logo tudo é escrita ou reescrita da memória.

O que levou o matemático galego, que sempre defendeu o esquecimento como o melhor veículo para a tomada de decisões acertadas, a encomendar a sua biografia antes de morrer?

É estranho, de facto, porque em teoria uma biografia é o substrato de um processo de memória. Terá de ser o leitor a descobrir, no entanto há pistas que são dadas ao longo do livro.

Podemos ver esta decisão como a do judeu que, no leito da morte, se converte ao catolicismo para ter acesso à vida eterna. Ou seja, perto do fim, esta personagem poderá ter optado por renunciar à sua doutrina e optar pelo caminho que o fará perdurar na memória os outros.

Uma das personagens, Maripá (a mulher – alga), tem Alzheimer, a doença do esquecimento. O que representa esta mulher?

A Maripá é apresentada como a solução para o enigma do livro; porém, tendo Alzheimer, não é capaz de solucionar a trama. Talvez porque só erradamente foi considerada uma solução, quando talvez seja a origem do dilema.

Ela representa, por outro lado, as memórias obsessivas e idealizadas que, quando novamente confrontadas, ficam sempre aquém da memória. Isto porque não são memórias são efabulações e ninguém ou nada está à altura daquilo que sonhamos.

Poderá, em determinadas circunstâncias, o esquecimento ser útil?

Naturalmente. Este livro coloca as ideias de lembrar e esquecer no mesmo plano. É tão importante pensar de forma histórica como de forma ahistórica. E isto é fundamental ao nível do indivíduo como de um povo ou de um país. Há a defesa de que é necessário esquecer para evoluir no sentido de que, por vezes, as memórias são paralisantes.

Portugal viveu essa síndrome durante séculos, padecendo de uma certa orfandade dos tempos heróicos dos Descobrimentos.
Por outro lado, se não esquecermos, seremos como o Funes de Borges, o memorioso. Que tudo lembrava, mas sobre nada conseguia pensar, porque não conseguia esquecer, logo não conseguia criar abstrações e inovar no pensamento.

“Fico mudo ao pé de pessoas muito velhas, das que estão no fim da vida. Revolta-me este longo período de pausa que nos é concedido antes da morte.” Podemos concluir que o narrador não vê com bons olhos a velhice, sendo esta encarada apenas como uma passagem para a morte?

O narrador ainda não tem maturidade para compreender o processo de envelhecimento e, neste aspeto, parte talvez das mesmas dúvidas que a autora da obra. No fundo, a grande questão é: o que fazer com as pedras que nos sacolejam nas vísceras, armazenadas ao longo de anos, e que nos tornam o caminho mais penoso?

Quando a vida tende para o fim teremos a capacidade de nos libertar desse peso?

Envelhecimento e amor, envelhecimento e sexualidade parecem, por vezes, na nossa sociedade, não serem compatíveis. Procura, de algum modo, neste romance, desconstruir o estigma associado ao processo de envelhecimento?

Com este romance procuro responder à questão: o que fazer com as memórias e como lidar com estas.

Tenho a esperança de que com o envelhecimento me torne mais sábia nesta gestão.

Há a ideia de que os mais velhos têm falhas de memória e que por norma recordam-se de situações mais antigas.

Muitos olham para essa realidade como algo fruto de uma patologia, de um desgaste da memória. Acredito que quando somos mais velhos, ficamos mais sábios e – como tal – guiamos a nosso pensamento para os momentos felizes, de vitalidade, força e juventude.
São estes que valem a pena ser recordados.

Disse recentemente, em entrevista ao JN, que escreve para conhecer melhor o ser humano. O que poderá ajudar o ser humano a envelhecer melhor?

Esquecer e lembrar em doses certas.

Como vivencia o seu processo de envelhecimento?

Mantendo-me curiosa, estando disponível para a descoberta, conseguindo ficar maravilhada com alguma coisa frequentemente, movendo-me em processos complexos de alteridade, tentando pensar e ver o mundo pelos olhos de outros.

Evitar ao máximo o rancor e o arrependimento.

SINOPSE

Um romance extraordinário, feminino (embora sobre homens), em torno de um matemático que encomendou a sua biografia antes de morrer.
Jorge Rousinol é um matemático galego, que sempre defendeu o esquecimento como o melhor veículo para a tomada de decisões acertadas. No final da vida encomenda uma biografia sua a uma casa editora. Estranha decisão para quem nunca quis recordar. O biógrafo escolhido acaba por ser alguém com quem privara décadas antes e que se vê, ele próprio, enleado em memórias moribundas.

É um romance em três tempos (o do passado do biografado, o do passado do biógrafo – e o do presente, que os une), que vê no arrependimento outra forma de se lidar com as recordações. Biógrafo e biografado conseguirão, em parte, o que pretendem: não se trata de esquecer, mas sim de escrever uma confissão. Uma escrita fantástica, inesperada, inovadora – de uma leveza surpreendente. Diálogos muito bem escritos, sensuais. Incursões pela magia dos números primos. Desenlace inesperado.

FOTO: https://escritores.online/

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