No contexto da avaliação da Qualidade Relacional nas respostas dirigidas à população idosa, o filme Familiar Touch (Toque Familiar), de Sarah Friedland, convida-nos a refletir sobre a relação entre quem vive com demência e quem cuida. Mais do que retratar funções ou responsabilidades, revela a profundidade humana dessa relação e a importância de reconhecer a pessoa para além da doença.
Evitando os estereótipos habitualmente associados à demência, Familiar Touch afasta-se da visão da pessoa como mera “doente”. Ruth, magistralmente interpretada por Kathleen Chalfant, é retratada como uma pessoa que preserva a sua identidade para além da doença, mantendo desejos, emoções, dignidade e a capacidade de estabelecer relações humanas significativas.
A autenticidade com que a demência é retratada, sem dramatizações nem estereótipos, faz de Familiar Touch muito mais do que um filme sobre a doença. É uma reflexão sobre a forma como cuidamos das pessoas e sobre valores essenciais como a dignidade, a identidade, a autonomia, a humanização dos cuidados, a relação entre profissionais, residentes e famílias, a ética do cuidado e a importância do contacto humano.
Na perspetiva da Qualidade Relacional, Familiar Touch constitui um excelente recurso pedagógico, porque evidencia, de forma particularmente clara, alguns princípios fundamentais da Qualidade Relacional e dos cuidados centrados na pessoa:
• a pessoa é sempre muito mais do que o seu diagnóstico;
• cuidar é construir uma relação e não apenas executar tarefas;
• a comunicação não verbal, o toque e a presença têm um papel essencial;
• a dignidade pode e deve ser preservada, mesmo nas fases mais avançadas da demência;
• a excelência dos cuidados depende tanto da competência técnica como da qualidade das relações humanas.
O maior mérito de Familiar Touch é recordar-nos que a demência não elimina a condição de pessoa. Enquanto subsistirem dignidade, identidade e capacidade de relação, continuará a existir um dever ético de cuidar com respeito, humanidade e proximidade. É nessa capacidade de reconhecer a pessoa para além da doença que começa a verdadeira Qualidade Relacional.
Talvez esta seja a pergunta mais importante que Familiar Touch nos deixa: quando cuidamos de uma pessoa com demência, continuamos verdadeiramente a vê-la como pessoa?
Paulo Mota Lourenço
PhD (USC) in Regional Development and Economic Integration Researcher in Social Gerontology Specialist in informal care, gerontological planning, social impact analysis, and quality in dignified care
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