Muito se fala hoje sobre o papel da inclusão digital como ferramenta de combate ao isolamento social e promoção da autonomia de pessoas idosas. Em geral, essa pauta surge associada a projetos de alfabetização digital, treinamentos para uso de aplicativos e acesso à internet. Embora essas iniciativas tenham sua relevância, é preciso reconhecer que, quando tratadas de forma limitada e tecnicista, elas falham em enfrentar os desafios mais profundos do envelhecimento na era digital.
A inclusão digital voltada apenas ao ensino técnico — como aprender a mexer no celular ou usar o WhatsApp — oferece uma resposta incompleta a questões que são, antes de tudo, simbólicas, relacionais e subjetivas. Muitos projetos param no básico, sem continuidade, sem escuta ativa, e sem considerar o que realmente significa estar presente digitalmente com sentido. A maioria das ações ignora, por exemplo, a necessidade de letramento digital crítico, ou seja, a capacidade de compreender, interpretar e produzir conteúdos com autonomia e discernimento no ambiente digital. Ignoram também a acessibilidade cognitiva, crucial para garantir que interfaces e linguagens digitais estejam em sintonia com os modos diversos de percepção, memória, atenção e sensibilidade das pessoas idosas.
Não basta mais incluir — é preciso pertencer. O que vemos com frequência é um modelo de inclusão digital que trata o idoso como mero usuário ou, pior, como alguém a ser treinado para alcançar padrões de produtividade digital voltados à juventude. Isso reforça, ainda que de forma sutil, o etarismo simbólico. O idoso entra nas plataformas, mas continua invisível enquanto sujeito de criação. Sua presença é muitas vezes tolerada, mas não celebrada. Viraliza quando é exceção cômica ou afetuosa, mas não como produtor de sentido, mentor ou referência social. A lógica das plataformas prioriza a performance veloz, o consumo e a autopromoção — e nisso, corpos envelhecidos são lidos como obsoletos, deslocados, “atrasados”.
Estudos recentes reforçam a urgência de repensar essa lógica. A pesquisa da University College London (2020) acompanhou mais de 9 mil adultos com mais de 50 anos e concluiu que os benefícios do uso da internet para esse grupo só se materializam quando há engajamento ativo — como produção de conteúdo, interações significativas e troca de experiências. Já os usos passivos, como apenas rolar telas ou consumir vídeos, tendem a não gerar efeitos positivos consistentes na saúde emocional ou cognitiva. Outra pesquisa com mais de 90 mil pessoas acima dos 50 anos, em 23 países europeus (estudo SHARE, 2024), indicou que o uso frequente da internet está associado a menor incidência de sintomas depressivos e maior percepção de bem-estar, desde que envolva comunicação, troca afetiva e aprendizado. Ou seja: não é qualquer internet — é a internet como território de expressão, vínculo e pertencimento.
É nessa perspectiva que experiências como o Eldera, nos Estados Unidos, ganham destaque. Trata-se de uma plataforma que conecta idosos a crianças para sessões regulares de mentoria via videochamada. A tecnologia aqui é mediadora de sentido: permite que o idoso exerça sua escuta, compartilhe vivências e crie vínculos com outras gerações. Outro exemplo é o The Joy Club, no Reino Unido, uma plataforma digital onde idosos participam de oficinas criativas, eventos culturais e grupos de afinidade — tudo em ambiente online, mas com ênfase em trocas simbólicas, construção de repertório e expressão pessoal. No Brasil, iniciativas como os cursos de empreendedorismo do SEBRAE voltados para idosos mostram como o domínio de ferramentas digitais pode favorecer não só a geração de renda, mas também o resgate de uma identidade produtiva e ativa na sociedade.
O que essas experiências têm em comum é o rompimento com a lógica de que a tecnologia serve apenas para cuidar ou proteger. Elas nos mostram que a tecnologia pode — e deve — ser ambiente de criação, autoria e reconhecimento. E é justamente aqui que as políticas públicas e projetos de gerontecnologia precisam avançar. Não se trata mais de ensinar a “mexer no celular”, mas de criar ecossistemas digitais que considerem o tempo do idoso, sua memória, seu silêncio, sua potência simbólica, sua capacidade de ensinar e transformar.
A proposta é clara: substituir a inclusão digital técnica por ambientes que promovam protagonismo digital. Isso significa pensar plataformas que acolham a linguagem do idoso, que permitam registrar e partilhar histórias de vida, que criem redes de mentoria e colaboração, que valorizem o tempo lento e o conhecimento vivido. Só assim a longevidade poderá ser vivida com sentido — e a tecnologia deixará de ser apenas instrumento para se tornar território de presença, vínculo e expressão.
Essa é a virada necessária para uma gerontecnologia comprometida não só com a funcionalidade, mas com a dignidade e a potência simbólica do envelhecer.
Referências:
UNIVERSITY COLLEGE LONDON. Internet use and wellbeing in older adults: a longitudinal study. Londres, 2020. Disponível em: https://www.ucl.ac.uk. Acesso em: 22 jun. 2025.
BÖRSCH-SUPAN, Axel; BRANDT, Michael; LITWIN, Howard; WEBER, Guglielmo (eds). SHARE Wave 9: Data resource profile. European Journal of Public Health, 2024.
ELDERA. Connecting generations through digital mentoring. Disponível em: https://www.eldera.org. Acesso em: 22 jun. 2025.
THE JOY CLUB. Online creative workshops and community for older adults. Disponível em: https://www.joyclub.com. Acesso em: 22 jun. 2025.
SERVIÇO BRASILEIRO DE APOIO ÀS MICRO E PEQUENAS EMPRESAS (SEBRAE). Empreendedorismo para a terceira idade: cursos e iniciativas. Disponível em: https://www.sebrae.com.br. Acesso em: 22 jun. 2025.



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