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DA EPIDEMIA SILENCIOSA À URGÊNCIA DO PLANO NACIONAL

“Não sabemos a causa da doença de Alzheimer e nunca a saberemos, porque não há uma causa, há muitas” afirma Alberto Rábano, Diretor do Banco de Tecidos da Fundación CIEN[1] em Espanha, dedicado à investigação em doenças neurológicas.

Mais de um século após a descoberta de Alois Alzheimer, não se conhecem as causas nem o tratamento da epidemia silenciosa. Todos os fármacos experimentais têm fracassado sucessivamente. As autoridades americanas decidiram, no dia 07 de junho de 2021, autorizar o mais recente, o aducanumab, fabricado pela farmacêutica Biogen com um preço de mais de 40.000,00€ anuais por paciente.  É o primeiro tratamento que ataca as supostas causas da doença de Alzheimer, o medicamento limpa a beta amiloide. Contudo, não está, ainda, demonstrado que este implique um benefício clínico para os pacientes. Na verdade, são se sabe se será eficaz.  A Agência Europeia de Medicamentos já está a estudar os resultados do aducanumab para avaliar a sua possível autorização na UE. Talvez estejam a ser dados os primeiros passos para a obtenção do tão desejado tratamento. Tenhamos esperança na ciência!

Todos conhecemos alguém ou temos um amigo que enfrenta os desafios colocados pela demência à pessoa que adoce, aos cuidadores, às famílias aos amigos, à comunidade. Na minha aldeia, pequena, despovoada e envelhecida, há pelos menos 4 senhoras com demência. Numa visita recente à Médica de Família, ao comentarmos as questões associadas ao despovoamento e ao envelhecimento, somamos-lhe a demência e os desafios que comporta para as, na maioria, mulheres; idosas; pobres; isoladas; sós…

A Organização Mundial de Saúde (OMS) estima que o número de pessoas com demência triplicará e superará os 150 milhões em 2050. Evitando os fatores de risco poder-se-ão prevenir cerca de 40 milhões de casos, sem necessidade de um fármaco que não sabemos se surgirá, quando e a que preço. Não descurando a investigação, a prioridade deve centra-se na prevenção.

A Alzheimer Disease International, no seu último relatório From Plan to Impact, informa que mais de 25% das pessoas que faleceram com Covid 19 tinham Alzheimer ou outro tipo de demência. Na análise efetuada às ações desenvolvidas pelos diversos países para estabelecer planos nacionais, constatou-se que só 32 dos 194 Governos que aderiram ao compromisso da OMS em 2017 para criar 194 planos nacionais de demência antes de 2025 honraram a sua palavra. A espuma dos tempos…

Vivemos uma pandemia mediática – Covid 19 – não olvidemos a pandemia silenciosa, invisível e crescente que afeta milhões de pessoas em todo o mundo, uma das principais causas de morte.

Portugal não tem um plano nacional para a demência. Há uma estratégia, no âmbito da saúde, que poucas ou nenhumas novidades tem proporcionado a quem se vê a braços com desafios colossais sem data nem hora marcadas e sem vislumbrar as soluções e os apoios que se impõem.

Continuo a defender que Portugal deve somar-se ao grupo dos países que assinou o acordo de ter um plano nacional até 2025, um plano que contribua para a prevenção, o diagnóstico precoce, o percurso de cuidados, a investigação e tratamento e a construção de uma comunidade amiga das pessoas com demência.

[1] https://bt.fundacioncien.es/

José Carreira

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