Artigo

Do discurso à prática: financiar o ageing in place e reequilibrar o pacto intergeracional através da Diferenciação Positiva no SAD

O recente relatório Gulbenkian Home Care, em síntese, indica que o cuidado domiciliário deve evoluir para melhorar a qualidade de vida, aliviar a sobrecarga do cuidador e reforçar a resiliência e qualificação das equipas.

Ao longo de duas décadas, Portugal construiu um consenso retórico em torno do ageing in place: a ideia, amplamente partilhada por cidadãos e decisores, de que devemos criar condições para que as pessoas envelheçam com dignidade no seu domicílio e na sua comunidade.

No entanto, entre a retórica e a política efetiva abriu-se um desfasamento: a diferenciação positiva — aplicada de forma consistente às ERPI (lares) desde 2004, para acomodar maiores níveis de dependência e custos acrescidos — não foi estendida ao Serviço de Apoio Domiciliário (SAD).

O resultado é um paradoxo: reforçámos financeiramente a resposta mais institucional e deixámos estruturalmente fragilizada a resposta que melhor concretiza o ageing in place.

Este paradoxo tem consequências éticas e políticas. Éticas, porque comprometeu a justiça distributiva: são precisamente as pessoas com rendimentos mais baixos, em territórios dispersos e com maior dependência, que mais beneficiariam de um SAD robusto e acessível. Políticas, porque descredibilizou o pacto intergeracional — o compromisso implícito através do qual a geração ativa suporta, por via fiscal e contributiva, os cuidados dos mais velhos, esperando igual proteção no futuro.

Quando o SAD ficou para trás

Em 2004, no âmbito da revisão dos modelos de comparticipação do Estado às Instituições Particulares de Solidariedade Social (IPSS), foi introduzido o princípio da diferenciação positiva nas Estruturas Residenciais para Pessoas Idosas (ERPI). Esta medida representou um marco importante na política social: pela primeira vez, o financiamento público deixou de ser uniforme, passando a reconhecer que nem todos os residentes têm o mesmo grau de dependência, nem todas as instituições enfrentam os mesmos custos de prestação de cuidados.

Os principais objetivos da Diferenciação Positiva consistiam em garantir:

  • Equidade no financiamento: ajustar as comparticipações da Segurança Social à realidade dos custos, evitando que instituições com perfis mais complexos fiquem subfinanciadas;
  • Melhor adequação dos serviços aos utilizadores: incentivar respostas alinhadas com as necessidades efetivas das pessoas (por exemplo, altos níveis de dependência em lares);
  • Qualidade e sustentabilidade: promover a melhoria contínua e a sustentabilidade das respostas sociais, recompensando quem cumpre requisitos mais exigentes.

Todavia, este investimento diferenciado foi assimétrico: concentrou-se nas ERPI e nas creches, deixando de fora o SAD. Com isso, criou-se uma hierarquia implícita entre respostas sociais — a institucionalização foi financeiramente favorecida, enquanto o apoio domiciliário, mais próximo do desejo dos cidadãos de envelhecer em casa, permaneceu estruturalmente fragilizado.

Ao contrário das ERPI, o Serviço de Apoio Domiciliário (SAD) nunca beneficiou da aplicação do princípio da diferenciação positiva. Desde 2004, a comparticipação estatal manteve-se praticamente uniforme, sem distinguir entre perfis de utentes, graus de dependência, número de horas de apoio prestadas ou realidades territoriais. Este desenho de financiamento traduziu-se numa profunda fragilidade estrutural.

O reflexo desta realidade está bem documentado: há mais de catorze anos, a taxa de frequência do SAD mantém-se persistentemente abaixo dos 65% da capacidade instalada. Este indicador revela não apenas a incapacidade de resposta às necessidades reais, mas também o desajuste estrutural do modelo de financiamento. Uma rede que poderia apoiar mais de 100 mil pessoas idosas permanece cronicamente subutilizada, porque as organizações não conseguem suportar financeiramente a sua atividade plena.

Durante duas décadas, as políticas sociais fragilizaram o próprio modelo de ageing in place. Ao não garantir a sustentabilidade do SAD, privilegiou-se implicitamente a institucionalização em lares — uma resposta mais cara para o Estado. Este desalinhamento comprometeu a coerência entre o discurso político, que exalta o envelhecimento em casa, e a prática orçamental que penaliza precisamente a resposta que o torna possível.

O Estado ignorou a evidência que apontava para a necessidade de Portugal priorizar:

  • Estruturar a reconciliação terapêutica com visitas domiciliárias pós-alta;
  • Implementar gestão de caso;
  • Promover reabilitação para a autonomia (terapia ocupacional e fisioterapia);
  • Assegurar apoio sistemático ao cuidador (formação, suporte psicoeducativo e descanso);
  • Integrar cuidados paliativos domiciliários;
  • Desenvolver programas multicomponentes de prevenção de quedas e de nutrição;
  • Garantir teleassistência/telemonitorização interoperável;
  • Instaurar governação por resultados, com indicadores comparáveis de segurança, experiência, capacidade funcional e avaliação económica.

Estas práticas, alinhadas com a evidência, reforçariam a qualidade do SAD e acelerariam a transição para cuidados dignos e centrados na pessoa. A evidência confirma que a ausência de Diferenciação Positiva no SAD comprometeu, durante duas décadas, o pacto intergeracional.

Reverter a fragilização do pacto intergeracional exige medidas políticas e institucionais concretas. A primeira é inequívoca: aplicar ao SAD o princípio da diferenciação positiva, tal como já se fez nas ERPI. O financiamento deve refletir o grau de dependência da pessoa idosa, o número de horas de apoio prestadas e as condições territoriais onde a instituição opera. Só assim será possível garantir a sustentabilidade das organizações e a equidade no acesso das populações mais vulneráveis.

Em segundo lugar, impõe-se a revisão da legislação do SAD, alinhada com a Estratégia Europeia dos Cuidados 2030. O envelhecimento em casa deve ser a prioridade, o que implica não apenas atualizar as normas de funcionamento, mas também transformar o SAD e o Apoio Domiciliário Integrado (ADI) numa resposta única, coerente e articulada. A atual fragmentação entre as áreas social e da saúde gera sobreposições, lacunas de cuidados e desperdício de recursos.

Todavia, esta revisão levanta uma questão central: como implementar um modelo mais exigente se não existem enfermeiros suficientes em Portugal para responder às necessidades futuras dos cuidados de longa duração? A pressão demográfica e a emigração de profissionais agravam um défice estrutural já profundo. Acresce outra lacuna: o SAD não contempla a categoria profissional dos psicólogos, apesar do aumento das perturbações de saúde mental associadas ao envelhecimento e à solidão.

A agenda crítica das políticas sociais em Portugal é transformar princípios em sistema. Contudo, a realidade da habitação envelhecida, o isolamento das pessoas idosas, o empobrecimento das famílias, a priorização da despesa em defesa e a escassez de profissionais dificultam o financiamento diferenciado para o SAD.

Só com liderança, metas públicas e financiamento estável cumpriremos a promessa de envelhecer em casa com dignidade.

Paulo Mota LourençoPhD (USC) in Regional Development and Economic Integration Researcher in Social Gerontology Specialist in informal care, gerontological planning, social impact analysis, and quality in dignified care

428 views
cool good eh love2 cute confused notgood numb disgusting fail