Artigo

Envelhecimento saudável exige escuta e empatia

 Ao entrar na casa dos 62, minha expectativa  é ver cada vez mais os idosos vivendo em ambientes físicos e sociais que favoreçam a saúde – já que os adoecimentos não são determinados apenas pela herança genética

 

Você já teve a sensação de estar falando para as paredes, pois quem está ao lado está ouvindo, mas não te escutando? Todos nós já passamos por situações desse tipo. Com o tempo isso pode ocorrer com maior frequência. É comum ouvirmos queixas de mulheres e homens sobre a pouca ou nenhuma receptividade dos filhos e netos sobre o que eles falam, num gesto de quem abre as portas para o idadismo -discriminação contra a pessoa por causa da sua idade.

Papo de velho é chato, não posso explicar agora, procure fazer algo para se distrair. Por incrível que pareça, em plena Década do Envelhecimento Saudável nas  Américas ( 2021 a 2030), conforme declaração da Assembleia Geral das Nações Unidas (ONU) em dezembro de 2020, ainda são comuns estas falas idadistas

Os ambientes físicos e sociais podem colaborar com a discriminação ao idoso em diferentes manifestações. Esse tipo de preconceito às vezes nasce na infância dos indivíduos, quando o valor da pessoa mais velha, da escuta e atenção ao idoso não são priorizados. 

Lembro de meu pai contando histórias, recitando poesias e cantando trechos de músicas. Eu não ouvia ele: o escutava. Talvez por isso saiba até hoje histórias, letras de músicas e versos inteiros dos poemas que ele gostava. Tenho muitas lembranças das conversas com minha mãe, dos relatos sobre a vida dela na zona rural, dos primeiros empregos dela e como foi importante ela deixar a casa dos pais, lá nos anos 50, na busca da independência financeira. Escutá-los contribuiu para compreender a importância de não ter medo, para me tornar a mulher madura que segue ousando – mesmo que em alguns momentos eu sinta um frio na barriga. 

A escuta aos mais velhos – hoje isso está muito mais nítido, não é bom somente para nos situarmos em nossa própria existência, saber da vida dos nossos afetos, mas especialmente porque abre uma janela para as pessoas de todas as idades serem igualmente contempladas com esse processo, não permitindo uma das manifestações do idadismo, que é não dar voz aos velhos. 

Me vejo envelhecendo e observo o quanto é importante escutar aqueles que têm experiência de vida, para que eles sintam-se vivos e eu também. Constatei em várias oportunidades como repórter, que a escuta faz a diferença e, para a pessoa idosa, isso tem uma importância maior ainda por vários motivos, entre eles como sentir-se parte da sociedade com a qual segue contribuindo. Além disso, sinaliza  respeito, amizade, amor e velhice saudável. Ou seja, tudo que todo ser humano precisa. 

É igualmente prazeroso ser o sujeito que escuta, que faz um investimento a longo prazo. No final das contas, todos os envolvidos saem ganhando. A equação é simples:  hoje você escuta, amanhã será escutado. Afinal, a humanidade tem pela primeira vez a certeza de que as pessoas podem esperar viver mais de 60 anos. Nas muitas reportagens com agricultoras e agricultores, aprendi tanto ou mais ao escutá-los do que ao ouvir palestras científicas. Afinal, ouvir é um processo mecânico e escutar é uma decisão, uma opção, um gesto solidário, empático. Sempre os relatos dos meus entrevistados, especialmente os idosos, foram atentamente escutados e viraram aprendizados: eu também estava ali para aprender. 

O idadismo afeta a todos, mas é cruel com os idosos

O diálogo amoroso traduz a escuta generosa, transforma vidas, é uma das armas para evitar doenças como a depressão – que coloca o Brasil como segundo país mais depressivo do mundo, com 9,3% da sua população com a doença, conforme a Organização Mundial da Saúde (OMS). A prevalência dos depressivos têm entre 60 e 64 anos (13,2%), sendo 14,7% mulheres e 5,1% homens, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística/IBGE

A Estratégia Global sobre Envelhecimento e Saúde da Organização Mundial da Saúde (OMS), o Plano de Ação Internacional sobre Envelhecimento da ONU Madrid e as Metas de Desenvolvimento Sustentável da Agenda da ONU para 2030 são programas que buscam mudanças para uma velhice com saúde. Para isso, entre as iniciativas da OMS estão os esforços para as cidades e comunidades se adaptarem às necessidades da população que envelhece, por meio da Rede Global de Cidades e Comunidades Amigas das Pessoas Idosas (GNFACC). Com apoio da Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS), as Américas são as que mais crescem nessa rede global para o empoderamento dos idosos. O último levantamento aponta um total de 805 cidades integradas às ações da GNFACC, que oferecem diferentes atividades para o envelhecimento saudável. 

Isso é um bom sinal, mas a caminhada é longa para os 61,25% destas pessoas com mais de 60 anos que vivem em áreas urbanas e para os 38,75% restantes que são moradores de áreas rurais na região dos continentes americanos e que ainda enfrentam o idadismo. 

Ao entrar na casa dos 62, minha expectativa  é cada vez mais ver idosos rompendo as barreiras do idadismo, vivendo em ambientes físicos e sociais que favoreçam a saúde – já que os adoecimentos não são determinados apenas pela herança genética, tendo causas que residem no tipo de sociedade, na infância das pessoas, nas atitudes de tolerância entre os indivíduos.  

Temos histórias e escutar os 60+ é o um dos primeiros movimentos para blindar o preconceito com os velhos. O idadismo afeta pessoas de todas as idades, mas com certeza é mais devastador nos idosos. 

LINK: CIDADES E COMUNIDADES AMIGAS DAS PESSOAS IDOSAS 

Deva Heberlê – Jornalista

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