Artigo

O DESPERTADOR É ADIADO DE QUATRO EM QUATRO ANOS

“O cadáver de Fernanda, 73 anos, foi encontrado ontem num apartamento do Bairro de S. Roque da Lameira, em Campanhã. A médica de família estranhou que a mulher não fosse à consulta há dois anos e deu o alerta. Quando as autoridades entraram na casa, viram o esqueleto da idosa.” (23/01/2026)

Em dezembro de 2025, assinei o artigo “Morrer Só”, onde escrevi o seguinte:

“São cada vez mais as pessoas idosas que morrem sozinhas, sem que ninguém se aperceba. Da inutilidade à invisibilidade, o idadismo faz os seus estragos, sem que nos insurjamos contra esta discriminação e preconceito porque é algo que está normalizado, num silêncio corrosivo e desumanizador. Um fenómeno que os japoneses designam “Kodokushi” que está a alastrar pela Europa, Portugal não é exceção.”

Faz pouco sentido a afirmação do Presidente da Câmara Municipal do Porto, Pedro Duarte: “Eu espero que este caso seja um despertador para todos nós, para a Câmara Municipal vai ser.”. Sr. Presidente permita-me dizer-lhe o seguinte: o despertador já tocou há muito tempo. Neste momento, temos, não só na cidade do Porto, em todo o país, os alarmes a soar, autênticas sirenes de emergência social. A Santa Casa de Lisboa lançou, em 2019, o Radar Social, um projeto pioneiro para identificar a população da cidade de Lisboa com mais de 65 anos, tendo em conta as suas expetativas, privações e potencialidades, com vista a construir sistemas de base comunitária de intervenção. Algumas vozes têm tentado fazer-se ouvir e alertar para esta urgência, sem grande sucesso. Precisamos de uma estratégia clara e exequível que resulte da auscultação dos agentes que estão no terreno. Dizer “Alguma coisa terá falhado” é um eufemismo que não colhe e não deve ser usado como escudo para maquilhar a realidade: TUDO FALHOU! Tudo falha quando a família, a vizinhança, a comunidade, o Estado só dois anos depois dá pela falta de uma PESSOA. Tudo falhou quando vemos imagens de pessoas idosas, num lar ilegal, amarradas, no meio de fezes, com múltiplas feridas, sem cuidados, entregues a si próprias, nas mãos de uma proprietária criminosa.

O Estado não pode adiar, sucessivamente, de quatro em quatro anos, o despertador. Não podemos dormir descansados, enquanto houver um concidadão nestas condições. Não acredito que o Cristiano Ronaldo precise de despertador para acordar e ir treinar ou que o adie sucessivamente. Nesta perspetiva, poderá valer a pena fazer eco das palavras do Sr. Primeiro Ministro, na mensagem de ano novo, ao apelar à “mentalidade Cristiano Ronaldo”. Sejamos, de uma vez por todas, pró-ativos e não reativos. Abandone-se o despertador, use-se o cronómetro, em contagem decrescente, para implementar medidas concretas que garantam a dignidade independentemente da idade.

José Carreira

224 views
cool good eh love2 cute confused notgood numb disgusting fail