Artigo

O tempo da branda brancura

Abriguei-me no bosque. Sempre soubera da sua cumplicidade. Não havia homens. Árvores, aves e esquilos. Apenas.

Em casa, num momento que o pânico toldou senti o tempo, frio, a passar veloz. Estremeci. Não pela temperatura. Mas pela consciência da minha impossibilidade. De o deter. Ou abrandar.

Em redor dos anos, os objectos, já não eram sinais. Nem marcos de etapas, ou rumos decididos. Eram estranhos amigos do tempo. As gavetas cheias. As coisas dentro das gavetas cheias. Eram de alguém que ali as pusera. Mas não sabia quem, nem o que significavam. Uma camisola, relógios, extractos bancários, contas pagas, talões de multibanco, prospectos de agências de viagem nunca feitas… Tudo ultrapassado pelo tempo. E pela estranheza. Até os livros… Os milhares de lombadas alinhadas eram soldados em diferentes uniformes, de atalaia. A quê? Ignorava-o. Alguns tinham a minha assinatura. Rebuscada. O ex-libris “de alfa a ómega” (o que quereria dizer?), uma data, veloz também, e um lugar. Porquê tanta coisa a ofender o livro? Porquê aquele blusão em pele, cor de salmão? Quem o teria comprado e vestido? Seria meu. Porquê?

O tempo, vertiginoso, não fazia mal às coisas. Nem as perturbava. O tempo só ultrajava seres como eu. Valorizava a casa. Os terrenos. Os quadros. As moedas, os relógios, as canetas de colecção.

Desvalorizava-me de tal modo que já nem eu sabia que valor tinha ou se algum dia o tivera. Não. O tempo tornara-me um peso morto. Uma agonia. Mas no bosque. Sim, no bosque os carvalhos eram seguros e copados. Os carreiros continuavam, estreitos e íngremes, inalteradamente pisados. O chilreio das aves era-me familiar. E os esquilos fulvos, irrequietos, não fugiam de mim.

Pensei, então, que no bosque iludiria o tempo. E ali, ele não me encontraria e deixava de ter importância e pressa. No bosque, primordial, era aceite como a caruma dos pinheiros, ou o musgo nas pedras velhas. Como eu.

E a ausência de tempo, no bosque, surpreendeu-me a passar manhãs olhando o tronco e sobre o tronco a casca de uma tuia. A passar tardes, sentado no chão, a olhar o voo das aves e a perceber a lógica do seu voar, do seu pairar, do seu poisar. A passar dias à espera da aceitação dos esquilos…

Achei, pois, natural o bosque, sem homens nem ruídos estranhos, nem construções e destruições de homens e onde o tempo tinha ainda quatro movimentos: a timidez eflorescente da primavera, a tepidez exaltada do verão, o ocre gasalhante do outono e a algidez picante do inverno. Este era o tempo. Sem pessoas e igual ao tempo de há mil anos. O tempo que não me empurrava para tão estranho fim. O tempo da branda brancura instalada no meu cérebro. Ausente de tudo o que fora. O tempo de pairar. Ausente dos novos. De olhar metálico, duro e frio. E voz zangada, numa cacofonia estrídula, assertiva e apressada que me atordoava, porque não sou surdo. Perdi apenas a memória. Voluntariamente. E ainda bem. Pois assim não sei quem são.

Paulo Neto

Director da revista literária “aquilino”

Editor da plataforma de CS www.ruadireita.pt

(Não respeita o AO)

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