#ARTIGO***** – “MINGUAR” (HENRIQUE RAPOSO NO EXPRESSO)

“Cheguei a uma idade em que as pessoas mais velhas que me rodeiam começam a morrer. Há uns anos tinha dois ou três casamentos por ano. Agora estou no hall daquela sinistra casa onde cada divisão é um funeral, duas ou três assoalhadas de morte por ano. Nada disto é novo, dir-me-á o leitor mais rezingão. É verdade. O confronto com a morte não é novo. Contudo, a forma como a minha geração se confronta com a morte talvez seja nova: vemos os nossos velhos partir quando os nossos filhos ainda são minúsculos. Levamos biberões para velórios. Esta confluência temporal, sim, parece-me nova. A morte do avô, nosso pai, surge num tempo demasiado precoce para as crianças e sobretudo para nós. Quando ainda precisávamos da âncora que são os nossos pais e tios, eles partem e nós ficamos sozinhos com bebés nos braços. Fomos pais demasiado tarde. Essa escolha tem agora um custo. Estamos sem mapa emocional, não conhecemos estes novos ventos morais.

Os nossos pais só deviam partir quando os nossos filhos já estivessem criados. Lidarmos com o luto só devia aparecer depois de finalizarmos essa saga que é educar um ser humano. Sucede que, na narrativa da minha geração, estas duas realidades são paralelas e não sequenciais; dois pregos, dolorosos mas separados, transformaram-se numa tenaz que aplica duas forças contrárias ao mesmo tempo. Como dizia há dias no “Observador” uma socióloga, Maria José Núncio, somos uma “geração sanduíche”, uma geração emparedada entre dois imperativos morais: criar os nossos filhos e lidar com a velhice dos nossos pais, que é cada vez mais longa e complicada; parte da energia emocional que gastamos com as crianças tem de ser direcionada para outro lado, temos de levar o berço para o funeral ou hospital.

Mas como é que que se faz este milagre da divisão? Depois do esgotante dia a dia (trabalho e crianças), como é que arranjamos energia e dinheiro para um pai com Parkinson ou para uma mãe com Alzheimer? Como é que reinventamos o nosso dia a dia e até as férias para juntarmos velhos e novos? Como é que reinventamos a sociedade e até a ideia de família para que os mais velhos não se sintam a mais? O nosso valor enquanto homens e mulheres será decidido pelas respostas a estas perguntas. A dimensão moral da minha geração será decidida pela forma como sairmos desta tenaz.

Não será fácil, e contra mim falo. Na infância e juventude, fomos educados para o nosso prazer. Somos uma geração hedonista, cuja raiz está no egoísmo. Somos criaturas autocentradas, filhos do pós-modernismo. Mas, agora, a meio da vida, temos de descobrir as noções clássicas de sacrifício e renúncia: a renúncia pelos nossos filhos, o sacrifício pelos nossos velhos. Temos esta grandeza dentro de nós? Tenho eu esta grandeza dentro de mim? Na próxima década ou mais, haverá à superfície muitas polémicas, muitas causas, muitos partidos, mas o subsolo será sempre o mesmo: temos esta grandeza dentro de nós? Teremos força para criar crianças, sustentando o futuro, e para tratar dos velhos, respeitando o passado? No fundo, teremos força para nos subtrairmos através da aritmética da renúncia? Só seremos grandes se minguarmos.

    (Henrique Raposo, Expresso, 02 de março de 2019)

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