O VÍRUS NÃO NOS AFASTARÁ

Somos um povo de afetos, de toque, de abraços, de beijos, de convivência social. Portugal, tal como a Espanha ou a Itália, os designados povos do sul, tem uma cultura muito arreigada de interação entre as pessoas. Não cumprimentar alguém, com um aperto de mão ou um beijo, era, até há bem pouco tempo, sinal de alguma frieza ou mesmo de falta de educação.

Eis que um vírus, de um dia para o outro, muda o nosso modo de vida, afasta-nos, obriga-nos a manter uma “distância social”. Não há beijos, não há abraços, não há convívio. Custa-nos muito, mas assim tem de ser, para que a humanidade vença esta guerra contra um inimigo “invisível”, mas poderoso e, por vezes, letal.

Para os grupos de risco, que inclui as pessoas idosas com mais de 70 anos, há um “dever especial de proteção”. Este grupo só deve sair da sua residência em circunstâncias muito excecionais e as visitas que lhes são feitas devem ser restringidas ao mínimo necessário. Esta circunstância revela-se duplamente penalizadora para as pessoas mais velhas que, além de serem um dos grupos mais vulneráveis, são invadidas pelos sentimentos de isolamento e solidão, especialmente aqueles que vivem sós.

Mesmo aqueles que não vivem sós, são aconselhados a isolarem-se, a não contactarem com os seus familiares e amigos, a manterem-se distantes dos netos. Uma equação estranha, se queres proteger o teu avô não o visites. Tem sido difícil, segundo alguns amigos, explicar às crianças, que passam dias seguidos dentro de casa, que não podem visitar ou ser visitados pelos seus avós.

Como seres sociais que somos, vivemos tempos que contrariam a nossa natureza. Não podemos deixar que um qualquer COVID 19 nos afaste uns dos outros, enquanto família, grupo de amigos e comunidade. Temos que deitar a mão a todos os instrumentos de que dispomos para que não nos sintamos sós e não nos deixemos invadir e capturar pelo medo, a ansiedade, a dúvida, o pânico…

Como nos disse o filósofo José Gil, num texto brilhante pulicado no jornal Público (16/03/2020): “É contra a tendência a sermos capturados por um tal sentimento de medo que é preciso lutar – precisamente mantendo-nos ativos e preocupados com os outros e a vida social de que fazemos parte.”

Os contactos não presenciais podem, neste período difícil, ser substituídos por ligações Skype, através do WhatsApp, ou simplesmente com um telefonema que permita indagar do estado de saúde do ente querido e apoiar na descodificação da informação que lhes entra em casa a toda a hora.

Brevemente, os contactos mediados pelas tecnologias darão lugar a um jantar em família, com abraços, beijos e, acima de tudo, muito amor.

O vírus não nos afastará!

O vírus não nos vencerá!

#FiqueEmCasa

Artigo publicado originalmente na REVISTA BICA.

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