Artigo

Quanto passado cabe em 18m²?

A minha avó galopa a caminho dos 100 anos, troca galanteios com um vizinho de quarto, não sabe ler, mas gosta de pintar e está fechada há vários dias em 16m², talvez 18. Uma crónica de Filipa Martins.

Há mais de 300 lares com casos de covid-19 ativos no Luxemburgo, leio. A pandemia tornou-se o genocídio dos velhos. Se não na forma mais brutal, no cárcere a que os votou. A sociedade moderna não era particularmente atenta ao envelhecimento, num inexplicável alheamento face ao futuro inevitável. Mas, se antes eram empecilho, hoje são bloqueio.

A minha avó não tem covid-19, mas há meses que não toca na pele da família, não beija as faces dos filhos, e, agora, está impedida de atravessar a porta do quarto. Quantos anos cabem em 18m²? Quanto passado pode ser emparedado numa divisão? No andar de cima, o vírus instalou-se, dizem-lhe mãos que eram de enfermeira e agora são de astronauta, ensacadas em borracha. Só a custo, no reflexo plástico que ensombra o olhar, deteta esperança. A janela traz-lhe a maresia nos dias de fragas. Mas o barco está aportado a uma cama, a um comando de televisão, às horas marcadas pela medicação e, agora, há pouca vontade para colorir o papel, se os dias correm da mesma cor.

A minha avó não sabe ler, já o referi, e por isso não estica sobre os esteios a manta da solidão disfarçada. Não tem por companhia o escritor carente que pede amor na forma de tempo e, em troca, serve-se do avesso, a mostrar as partes íntimas. E, se não sabe ler, tão-pouco sabe escrever. Apenas o nome numa letra sinuosa que treinou com afinco para assinar os cheques.

Sem a palavra no papel perde a bússola oracular criadora de unidade na sequência das silabas. O isolamento é, assim, um viver póstumo, sem público, sem audiência, sem avaliadores e sem glorificadores. Numa espécie de exercício à Brás Cubas. Como resolver esta condição fundamental de carência que nos motiva para a vida?

A minha avó tinha feito um pacto com o vizinho de quarto: ‘Iriam juntos lá para cima’, apesar de a apoquentar o que o falecido marido pudesse achar – uma vez lá chegados – do acordo. ‘Olhe que tenho um ciumento à minha espera’, retrucava, contente com a prevaricação. O vizinho subiu ao andar de cima – o dos infetados – como se habitasse um universo paralelo e ela está trancada à chave para não ter tentações. Calha que não tem vontade de abrir a porta, se a dele continua fechada.

FILIPA MARTINS – ESCRITORA

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