Artigo

“se tivesse apanhado com uma gotinha de álcool em cima”.

Começo por citar, já começa a ser um hábito, José Tolentino Mendonça:

“Nenhuma vida vale mais do que outra. Nenhuma vida vale menos. A vida dos fracos vale tanto como a dos fortes. A vida dos pobres vale o mesmo que a dos poderosos. A vida dos doentes tem um valor idêntico à vida dos saudáveis.

Passar a ideia de que há vidas que, em determinadas situações, podem valer menos do que outras é um princípio que conflitua com os valores universais que nos regem.” (E – Expresso, 8 de fevereiro de 2020)

Estou em total concordância com estas ideias que, lamentavelmente, têm sido postas em causa pela pandemia do Coronavírus COVID 19. Estamos na eminência de um retrocesso civilizacional. (A eutanásia ficará para outra altura…)

Temos assistido a relatos, vindos de Itália e de Espanha, de profissionais de saúde que se sentem entre a espada e a parede que são obrigados a fazer escolhas, a decidir quem será ou não tratado. Os mais velhos, de entre os mais velhos, com comorbilidades e elevados índices de fragilidade ficam, segundo os relatos, condenados.

Um dos pensadores mais lidos e reconhecidos do momento, Yuval Noah Harari, com mais de 23 milhões de livros vendidos no mundo inteiro, errou na identificação dos três maiores problemas que elencou aos líderes mundiais no Fórum Económico Mundial, de Davos: o risco de uma guerra nuclear; o colapso ecológico e a disrupção tecnológica.

São, sem qualquer margem para dúvidas, fatores de mudança para a Humanidade no século XXI. Mas, eis que o “Cisne Negro” surgiu, um acontecimento inesperado assola o mundo inteiro. O mundo consome cerca de 2% dos recursos em exércitos, armamento, defesa nacional, guerras… Exércitos, mais ou menos poderosos, que se revelam absolutamente incapazes de enfrentar um ser microscópico, um, apenas um que mudou, que, como sabiamente nos disse o Dr. António Sarmento, diretor do Serviço de Doenças Infeciosas do Hospital de São João do Porto, na Grande Entrevista, poderia ter sido aniquilado, no momento em que ocorreu a mutação, “se tivesse apanhado com uma gotinha de álcool em cima”.

Uma entrevista conduzida com a mestria a que nos habituou Vítor Gonçalves que recomendo vivamente que veja ou reveja na RTP Play (sugiro também o visionamento das entrevistas realizadas a Filipe Froes (brilhante!), Carla Nunes, Daniel Sampaio, Fernando Maltez…).

Destaco uma das ideias que me chamou mais a atenção, de acordo com o Doutor Sarmento, o critério, quando há necessidade de escolher quem tratar, não deve ser a idade da pessoa doente, mas sim o potencial da terapêutica a aplicar a esse doente. Faz sentido, faz todo o sentido.

É fundamental dar o “palco” a quem sabe, obrigado RTP e Vítor Gonçalves pelo leque de entrevistados que nos têm apresentado. Serviço público é isto mesmo!

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