O ODOR DA SOLIDÃO

… o corpo curvado, em direção  a um chão medonho e seco …

… o corpo inclinado, sumindo-se no odor de uma lembrança indesejada …

… corpo envolto em névoas de abandono e desespero, neblina parada num tempo insustentável …

… escondem-se as mãos na rugosidade familiar de umas contas de rosário, passeando entre os dedos escamosos as míseras orações de uma escravidão inexplicável …

… os olhos turvam-se na tentação de um lamento inacabado e religiosamente guardado na arca dos tempos moribundos …

… o corpo dobrado sob um caldeirão de fogo fátuo e andrajos de negrume que se despedaçam e se dissolvem na intemporalidade enfadonha …

… um corpo esmagado, absorvido pela pressão das intempéries, enterrando-se na leveza aparente de um manto de alva neve fria …

… escondido o corpo num reboliço de olhares estranhos, desconfianças e medos atravessados por um raio de tímida claridade …

… uns estranhos olhos tingidos de vermelhidão sofrida, lacrimejados pelas palavras indecifráveis, envolvidas num manto de sentimentalismo condenado …

… os pés aprisionados numas caixas negras, raízes arrancadas de uma terra morta que se arrastam em redor de uns breves resquícios de vida …

… um corpo feito de troncos envelhecidos, ramos trespassados pelos machados rombudos arrancados de memórias atrofiadas …

… ai que corpo tão estranho à vontade da alma e aos intentos do olhar e aos anseios da mais inocente extravagância …

… de cada passo demorado deixado sobre as pedras duras desprende-se um odor incómodo temperado de infortúnio e ingratidão …

… de cada conta do rosário acarinhada entre os escassos dedos desprende-se um baú de mágoas, quadros pesarosos, relicários de oblação, degraus rugosos de uma via sacra dolorosa …

… o corpo avança, cansado e débil, numa peregrinação consagrado, distanciando-se da primavera resplandecente …

… o velho corpo decadente afasta-se na distância dos sonhos e da terra bendita e consagrada, segurando um rosário  descaído …

… o corpo separa-se da intensa claridade do dia, inclinado em direção à sua sombra alongada e frágil …

… o corpo distende-se ao longo das fachadas esbranquiçadas, reflete-se fugazmente nas vidraças,  abandonando progressivamente o rebuliço abstrato da agitação urbana …

… das mãos calejadas e secas descai o rosário desgastado por mil orações repisadas e efémeras, murmúrio de um reportório decorado, como folhas de um livro amaldiçoado que se rasgam e se deixam esvoaçar sem remorso …

… um odor a solidão desfigurada persegue o corpo dobrado, permanece sobreposto aos perfumes subtis da primavera, derradeira manifestação de uma história de vida sem regresso …

 

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