Artigo

SENESCERE – 2

Cada vez me alheio mais do que me rodeia. Alhear é uma via para o vazio. Mas apenas do exterior. Vivo comigo. Um continente em mutação, com um conteúdo que se desagrega numa regularidade inexorável.

Por vezes canso-me deste cansaço, deito-me e, às escuras, ouço os sons. Adormeço ao leve toar da pele. São curtos os meus sonos. Raramente sonho e quando acontece é sempre em trote de pesadelo. Assim penso, pois desperto híper-exposto ao que me rodeia e, ou esbraseado ou a exsudar uma fina camada de humidade gelada.

A música acalma-me. A leitura distrai-me. A escrita põe-me de atalaia aos balanços deste viver. Um deve e um haver quotidianos, retratados nesta folha de caixa.

Soube hoje que alguém conhecido perdera um filho que gerava, nos seus três primeiros meses de existência. Uma lástima… há tanto a tentar tudo para o ter.

De tanto olhar nada ardem-me os olhos. Tenho de me habituar a cerrar as pálpebras, acto a que o meu subconsciente reage, negando-mo. Talvez a presciência do definitivo cerramento. E daí?

O fino e cáustico humor de le Carré em “O Ilustre Colegial” traz-me um pouco de boa disposição. Esta publicação dele data de 1977, quase de há quatro décadas, e é das mais conseguidas da sua trilogia: A Toupeira, O Ilustre Colegial e A Gente de Smiley. E porém, le Carré já era um homem maduro aquando da sua escrita… ou talvez por isso. Tinha 46 anos. Eu tenho mais e só editei um livro (que comparação!). Que quase ninguém leu, tendo-se os seus 400 exemplares esgotado por cortesia.

O relógio diz-me 00H12. Passo ao dia seguinte. Vou ler mais um pouco e assobiar ao sono. Pode ser que venha. O meu corpo – hoje mais fraco – agradecia três ou quatro ininterruptas horas de estimável repouso.

 

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