A Associação Stop Idadismo alerta:
A DIGNIDADE NÃO PODE SER DESFOCADA
Nota pública sobre a exposição televisiva de uma pessoa idosa institucionalizada
No último episódio da reportagem A vida de uma euromilionária, transmitida pela CMTV, é mostrado o encontro da protagonista com o irmão, uma pessoa idosa que vive numa instituição em França.
Antes da visita, a narração da própria reportagem afirma:
«A indicação dada pela família é a de que António sofre de Alzheimer.»
Não dispomos de informação clínica que nos permita confirmar esse diagnóstico. Contudo, a indicação atribuída à família e divulgada pela própria CMTV deveria ter determinado um cuidado ético acrescido na gravação, condução e transmissão daquele encontro.
A doença de Alzheimer não retira automaticamente à pessoa a capacidade de decidir. Exige, porém, que seja avaliada a sua capacidade para compreender, naquele momento, o que lhe está a ser proposto e que qualquer consentimento seja verdadeiramente livre, informado e esclarecido.
Perante as imagens transmitidas, consideramos legítimo perguntar:
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A pessoa compreendia que aquela conversa estava a ser gravada?
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Sabia que seria transmitida na televisão?
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Compreendia a dimensão e as possíveis consequências dessa exposição pública?
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Foram considerados os efeitos emocionais das perguntas e das promessas feitas diante das câmaras?
Causa-nos também particular desconforto que se ouça o jornalista rir durante um momento familiar íntimo e emocionalmente delicado.
Não afirmamos que não tenha existido autorização para a gravação. Questionamos se foram assegurados o cuidado, a proporcionalidade e a proteção exigíveis perante uma pessoa idosa institucionalizada que, segundo a informação apresentada pela própria reportagem, vive com doença de Alzheimer.
DECIDIMO NÃO PUBLICAR O VÍDEO
A Associação Stop Idadismo dispõe de um excerto das imagens, mas decidiu não o divulgar. Republicá-lo significaria prolongar a exposição da pessoa cuja dignidade procuramos defender.
Desfocar um rosto pode dificultar a identificação, mas não responde, por si só, às questões do consentimento, da privacidade, da vulnerabilidade e do respeito.
Uma pessoa institucionalizada não perde o direito à intimidade, à imagem, à autodeterminação e à dignidade.
Uma pessoa com demência também não perde esses direitos.
Nenhuma pessoa deve ser transformada num recurso dramático, ou cómico, de uma narrativa televisiva.
A forma como os meios de comunicação representam as pessoas mais velhas influencia a maneira como a sociedade as vê e trata. Quando a vulnerabilidade é convertida em espetáculo, corre-se o risco de reforçar a desumanização e o idadismo.
O jornalismo pode e deve contar histórias humanas. Mas, deve fazê-lo com responsabilidade acrescida, quando estão envolvidas pessoas que podem não compreender plenamente o alcance da sua exposição mediática.
Não mostramos as imagens porque a dignidade que reclamamos para os outros deve começar nas nossas próprias escolhas.
Nota: esta reflexão refere-se ao episódio exibido na emissão televisiva da CMTV. À data desta publicação, o respetivo vídeo ainda não se encontra disponível nos canais digitais do canal. Caso venha a ser disponibilizado, acrescentaremos a ligação para o conteúdo original, sem republicarmos as imagens.
FONTE: ASSOCIAÇÃO STOP IDADSIMO


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