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UM GLOSSÁRIO COLETIVO PARA ENFRENTAR O IDADISMO NO CAMPO DA LINGUAGEM

A batalha contra o preconceito, a discriminação, precisa ser necessariamente ganha no campo das palavras. “A língua é uma legislação, a língua é seu código. Não vemos o poder que reside na língua, porque esquecemos que toda língua é uma classificação, e que toda classificação é opressiva”, alerta Roland Barthes (1915-1980) em Aula (Editora Cultrix, São Paulo, 1978, tradução Leyla Perrone-Moisés, página 6). Pois a luta pela superação do idadismo, ou etarismo, uma das principais manifestações contemporâneas de preconceito, ao lado do racismo e do sexismo, ganhará um forte aliado a partir do dia 10 de dezembro de 2021. Na data em que é lembrado o Dia Universal dos Direitos Humanos, será lançado de forma virtual o Glossário Coletivo e Enfrentamento ao Idadismo, idealizado pela Longevida e realizado em parceria por um conjunto de organizações.

O Glossário reúne termos, expressões, frases e situações que expressam o idadismo, o preconceito contra a pessoa idosa, explica Sandra Regina Gomes, fundadora e diretora da Longevida Consultoria na Área do Envelhecimento, que soma no currículo diversas contribuições para políticas públicas em defesa dos direitos da população idosa no Brasil. O lançamento acontecerá em live às 11 horas de 10 de dezembro, no YouTube da Longevida: https://www.youtube.com/c/Longevida ou no Facebook: https://www.facebook.com/longevidaconsultoria.

Sandra Gomes nota que o Glossário Coletivo foi produzido em parceria com a Prefeitura do Recife, através da Gerência da Pessoa IdosaUniversidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE)Grande Conselho Municipal do Idoso de São Paulo; Secretaria Municipal de Cidadania e Direitos Humanos de São PauloCasa Vovó Bibia de Apoio à Família, também de Recife (PE), e o Movimento Atualiza. Após a live, acrescenta, a publicação estará disponível para download no site da Longevida – www.longevida.ong.br.

“É um Glossário coletivo e colaborativo. Ficamos desde o dia 01 de outubro até 10 de novembro abertos para receber as frases, expressões e depoimentos de todo o Brasil. A maior parte das contribuições veio de duas cidades importantes no país, Recife e São Paulo e percebemos a regionalização da linguagem, do preconceito”, explica a diretora de Longevida. Ela afirma que será a primeira edição do Glossário, que continuará aberto a contribuições.

Preconceito no coração da linguagem

O preconceito de idade está enraizado na cultura, na linguagem, nas narrativas, continua Sandra. “Ele está no coração das nossas expressões. Então quando a Organização Mundial da Saúde, ao promover a Década do Envelhecimento Saudável, afirma que a primeira ação é mudar as formas como nós pensamos, sentimos e agimos frente ao processo de envelhecimento, as pessoas precisam perceber inicialmente o que estão falando e porque estão falando dessa forma. Pois como diria Paulo Freire, é preciso tocar o coração das pessoas e através da linguagem é possível mudar o comportamento. Tudo isso para dizer como algumas expressões nos chocam”, diz ela, sobre o impacto esperado com a publicação do Glossário.

“Temos um longo caminho pela frente. A proposta do Glossário é ir acompanhando ao longo dos anos os acréscimos e as possíveis mudanças no comportamento linguístico frente à população idosa. O idadismo afeta a saúde física e mental das pessoas idosas no Brasil e em todo o mundo e o Glossário veio para ajudar a combater essa discriminação”, salienta Sandra Gomes.

SANDRA GOMES

A iniciativa, lembra Sandra Gomes, é uma das ações da Campanha de Enfrentamento ao Idadismo “Lugar de pessoa idosa é onde ela quiser”, lançada em outubro de 2021 pela Longevida. Outras ações já realizadas foram as lives sobre o duplo preconceito que muitas vezes envolve a pessoa idosa, em relação ao capacitismo, ao racismo, à população LGBTQIA+ e a feminização da velhice. “Temas que nos revelam como o idadismo, infelizmente, está na estrutura da sociedade, nas instituições públicas e privadas, e por vezes é reproduzido pelas próprias pessoas idosas”, destaca a diretora de Longevida, fazendo eco às palavras de Roland Barthes. As lives podem ser visualizadas no YouTube da Longevida.

O lançamento do Glossário Coletivo de Enfrentamento ao Idadismo também integra o Festival de Direitos Humanos, iniciativa da Secretaria Municipal de Direitos Humanos e Cidadania (SMDHC), que começou no dia 4 de dezembro. Em sua nona edição, a programação mescla atrações presenciais e virtuais, incluindo cine debates, oficinas, paineis e conferir exposições fotográficas.

Movimento crescente contra o idadismo

A urgência de superação do idadismo como um dos maiores desafios atuais passou a ganhar maior projeção após a divulgação, a 18 de março de 2021, em plena pandemia de Covid-19, pela Organização Mundial da Saúde (OMS), do “Relatório Global sobre Preconceito de Idade”. O documento (saiba mais aqui!) revelou que uma em duas pessoas no planeta discrimina idosos, com atitudes que agravam a sua saúde física e mental e reduzem a sua qualidade de vida. As Nações Unidas alertam no documento que esse comportamento foi agravado na pandemia de Covid-19, na medida em que pessoas mais jovens e idosas foram estereotipadas no discurso público e nas redes sociais.

O alerta das Nações Unidas motivou uma forte reação internacional, com a deflagração de campanhas e movimentos contra o idadismo. Caso do #Stopidadismo, lançado oficialmente no dia 30 de abril de 2021, como uma resposta da sociedade civil iberoamericana contra a crescente manifestação de discriminação multidimensional contra a pessoa idosa. No Brasil foi igualmente lançado o movimento Atualiza, por várias organizações que lutam pelos direitos da pessoa idosa.

(Por José Pedro S.Martins)

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