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Urge “manter as pessoas em casa o máximo de tempo possível”

Estudo da Universidade de Évora vai ao encontro do documento da Academia Pontifícia para a Vida, que defende a necessidade de se devolver os mais velhos a um ambiente doméstico e familiar, após a pandemia.

Um estudo nacional da Universidade de Évora defende a necessidade de se repensar o modelo de cuidados prestados aos idosos. “Se se exige uma revolução, façamos a revolução”, defende o coordenador da pesquisa.

O trabalho é da Escola Superior de Enfermagem de S. João de Deus, da Universidade de Évora, e vai ao encontro do documento da Academia Pontifícia para a Vida que defende a necessidade de se devolver os mais velhos a um ambiente doméstico e familiar, após a pandemia.

A Santa Sé alude à necessidade de se operar uma revolução coperniciana na forma de cuidar dos idosos. Manuel Lopes, coordenador do estudo, diz à Renascença que “se se exige uma revolução, façamos uma revolução”.

Este trabalho da Escola de Enfermagem está a ser desenvolvido a pedido da Confederação Nacional das Instituições Particulares de Solidariedade Social (CNIS) e revela que “as pessoas quando são institucionalizadas veem agravada a deterioração cognitiva e a dependência funcional”, pelo que, afirma Manuel Lopes, é necessário “manter as pessoas em casa o máximo de tempo possível”.

“As pessoas quando são institucionalizadas, os seus laços relacionais de proximidade são cortados e isso é um problema em si próprio, e é um problema que agrava a deterioração cognitiva, e que agrava a dependência funcional”, sublinha.

Por isso, “pensamos que o modelo de cuidados tem de ser alterado. E tem de ser alterado privilegiando a permanência destas pessoas em casa o máximo de tempo possível”, defende o coordenador do estudo da Universidade de Évora.

“É claro que temos de ter sempre a noção de que há situações limite que vão continuar sempre a precisar de institucionalização. Mas, se a montante nós tivermos de facto muito bem organizados de forma a que as pessoas possam permanecer nas suas casas pelo máximo de tempo possível, nós estamos a assegurar que essas pessoas efetivamente têm, muito melhor qualidade de vida, e tem muito melhores cuidados e acima de tudo mais bem-estar e mais satisfação, permanecendo em suas casas. eu disso não tenho dúvida”, acrescenta Manuel Lopes, que aponta para as experiências que já existem no terreno e que podem servir de inspiração.

“Aldeias Humanitar”

O responsável da Escola de Enfermagem de Évora diz ser necessário haver vontade política e avançar-se para a criação da figura do cuidador comunitário, tendo como inspiração por exemplo o projeto “Aldeias Humanitar”.

“É um excelente exemplo para poder ser estudado, analisado, enquanto um caso paradigmático de uma forma da comunidade se organizar para dar resposta aquilo que são as necessidades das suas populações.”

“É um exemplo que não tem que ser replicado em moldes totalmente iguais, mas que pode ser replicado, adaptando-o a diversas circunstâncias pelo país”, esclarece.

Manuel Lopes entende que se “efetivamente houvesse vontade política, a vontade política devia acompanhar esta experiência para criar as condições para que ela sendo uma experiência que nasceu a partir das bases; tenha as condições para poder continuar a existir”.

“Aqui está um exemplo onde a criação dessa figura; da figura do cuidador comunitário pode ser uma ajuda muito importante a iniciativas desta natureza”, reforça.

O Vaticano, num documento da Academia Pontifícia para a Vida, defende “uma revolução” na forma de tratar os idosos, devolvendo os mais velhos a um ambiente doméstico e familiar, após a pandemia.

“É preciso mobilizar toda a sociedade”

Manuel Lopes afirma que, “se se exige uma revolução então faça-se a revolução”, mas não sabe se “os decisores estão preparados para isso”.

“Contudo, os decisores políticos, por norma, fazem aquilo que sentem que existe pressão para ser feito e, portanto, criemos nós condições; pressionemos nós os decisores, pressionemos nós o poder político para que essa revolução aconteça”.

E isso exige a “mobilização de toda a sociedade” que “tem de ser proactiva e dizer de forma clara que há situações, nomeadamente algumas regiões que carecem de resposta”. “Mas não é apenas dizer, exigir e não apresentar soluções. É dizer, apresentar soluções e lutar por elas, porque dessa forma eu estou convencido que nós iremos desenvolver por esse país fora vários outros exemplos de iniciativas que são diferenciadoras e vêm ao encontro das necessidades das pessoas”, sublinha o responsável.

O estudo para além de fazer um diagnóstico e a caracterização da realidade das estruturas residenciais para idosos (ERPI) e dos Centros de Dia, defende a necessidade de manterem “as pessoas em casa o máximo de tempo possível”.

De acordo com o coordenador do estudo “a partir dos 65 anos temos uma ínfima percentagem de pessoas que não têm doença nenhuma, e temos depois um reduzido número que tem uma doença crónica e depois à medida que a idade avança, o número de doenças crónicas é crescente”.

Por exemplo, “a partir dos 70 anos a maioria esmagadora das pessoas têm mais do que duas doenças crónicas e, portanto, nessa situação passamos a dizer que as pessoas têm multimorbilidade, ou seja, quer dizer que têm mais de duas doenças com um peso equivalente. E isto é uma realidade completamente nova e diferente que carece ainda de muito estudo”.

 

FONTE: Rádio Renascença

Foto: https://pixabay.com/users/mehe

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