Artigo

A SOCIEDADE DA LONGEVIDADE DEVE SER UMA PRIORIDADE

Portugal é o segundo país mais envelhecido da Europa com 185,6 pessoas idosas por cada 100 jovens (INE, 2022). Vivem, no nosso país, quase 2,5 milhões de pessoas com mais de 65 anos, dos quais 552.000 vivem sós e mais de 400.000 estão em risco de pobreza, segundo a Pordata. A qualidade de vida e os níveis de saúde não têm acompanhando o aumento da esperança média de vida. Demos anos à vida, falta-nos dar vida aos anos. A longevidade, uma das grandes conquistas da humanidade, não tem sido merecedora de celebração, mas, antes pelo contrário, de reprovação, discriminação e marginalização. O envelhecimento progressivo do nosso país é, inegavelmente, uma questão de emergência nacional. A gestão da longevidade apresenta claras disfuncionalidades que não podem continuar no ângulo morto dos decisores políticos e dos sucessivos governos. Um grupo que representa cerca de um quarto da população continuará abandonado, invisível e discriminado? Insistir-se-á em não olhar de frente para um dos grandes desafios do século, ignorando a catástrofe anunciada? A fatura pode tardar, mas não falhará e terá duas parcelas: a humana e a financeira. Portugal já está a ser muito afetado pela transição demográfica em curso e sê-lo-á, mais ainda, num futuro que se adivinha próximo, se nos limitarmos a falar das pensões e do Complemento Solidário para as (Pessoas) Idosas (CSI). Os recursos financeiros são fundamentais, mas não deixam de ser apenas uma das dimensões das nossas vidas. É essencial trabalhar para garantir a dignidade, a autonomia, os direitos, a promoção da participação ativa na vida da comunidade e o respeito por todas as idades.  O XXIV Governo Constitucional, liderado por Luis Montenegro, acaba de ser empossado pelo Presidente da República e perfaz um total de 59 governantes. Alimentei, em vão, a esperança de que, não havendo Ministério, uma das Secretarias de Estado fosse dedicada às questões da demografia, natalidade, longevidade, solidão, despovoamento… O desafio demográfico que enfrentamos carece de uma estratégia sistémica que defina a direção e construa uma nova ambição que acompanhe a sociedade da longevidade. É premente a inclusão efetiva das pessoas idosas no novo projeto societal para os próximos anos. Não o fazer é contribuir para a invisibilidade, desrespeito, preconceito e estereótipo que alimentam o idadismo, continuando a afetar uma em cada duas pessoas idosas. Não o fazer significa castrar quaisquer possibilidades de garantir intactos os direitos de uma franja significativa da população que merece reconhecimento e respeito. Não o fazer é exacerbar o idadismo larvar presente nas múltiplas esferas da sociedade e que pode afetar-nos, em vários momentos, ao longo do nosso percurso de vida.

José Carreira 

FOTO DE CAPA: https://pixabay.com/pt/users/jossiano-4522529/ 

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