#ArtigoEmDestaque – “Fujam dos velhos”

Destacamos artigo de Miguel Esteves Cardoso – Fujam dos Velhos” – publicado no jornal Público, no dia 17 de agosto de 2019:

FUJAM DOS VELHOS

Quando somo novos pensamos que ser velho é um azar, como ser leproso ou desconfiado.

Só quando nos tornamos velhos, por força dos números e da idade que, sem querer, atingimos, é que percebemos que ser velho é uma condição.

Para mais, é uma condição – que, lá está, nos condiciona.

Tenho reparado que, quanto mais velho fico, mais simpatizo com os velhos e as velhas, como se eu fosse um antropólogo cujos cabelos brancos fossem chaves para a compreensão dos meus semelhantes.

Tenho, ao mesmo tempo, a noção que os velhos são convencidos, teimosos, inflexíveis, lentos e chatos como a potassa do sabão-macaco.

Eu também sou assim. Tornei-me nesse monstro afectado e petulante, de espírito fechado e atitude combativa, que ficou incapaz de aprender ou de se adaptar.

Ao perceber esta enorme tristeza, – por ser, tanto quanto consigo compreender, verdade – só me ocorre a generosidade, como compensação, por natureza, pouco convincente, de avisar as pessoas mais novas a fugir das pessoas mais velhas e não ligarem ao que elas dizem – excepto nisto, claro. Como é que poderia ser de outra maneira?

No trânsito, nos restaurantes e nas discussões com desconhecidos que têm uma opinião diferente da nossa (mas chata e previsível à mesma), aproveitem a vossa juventude (ou minimizem a vossa velhice) fugindo das pessoas velhas que, por força de tanto viverem, chegaram a conclusões que são discutíveis mas que elas perderam a capacidade de discutir.

Fujam enquanto ainda é tempo. E não se dêem ao trabalho de me agradecerem depois de fugirem. (Miguel Esteves Cardoso,  IN Público, 17 de agosto de 2019)

 

 

 

FOTO: Público

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