Artigo

Vamos deixar de ler?

Dizia um amigo meu, na sua porfiada candura legente, que é nas livrarias que se têm os melhores encontros. Nunca dilucidei a que se referia, se aos livros se a outros leitores no mesmo espaço encontrados.

Hoje encontrei o meu amigo José Carreira num desses espaços. O Zé é um leitor atento e interessado, mais em temáticas de emergência social até do que em meras ficções, embora saiba que não as desdenha.

Nesta matéria e sem fanfarronices inadequadas, creio ganhar-lhe. Sou há muito um leitor compulsivo, daqueles cada vez mais raros que leem livros por semana. Sim, plural. Livros.

Este meu fascínio (do lat. fascinium, malefício transmitido através do olhar) vem-me de criança quando, ainda sem saber ler, fugia para a abonada biblioteca do meu avô paterno e passava tempos infinitos a olhar as lombadas em bela carneira vermelha, preta ou azul, gravadas a doirados caracteres, a sopesar os livros com um carinho intrigado, a cheirar os ainda remanescentes odores da impressão.

Sim, um livro permite percorrer quase um percurso sinestésico pelos cinco sentidos, se entendermos o saborear e o ouvir na sua metafórica extensão.

Pela vida fora, quantas vezes tive que optar entre um livro e uma peça de roupa, um jantar com os amigos, um passeio… Ganhava sempre o livro.

Hoje, na faixa etária que me concede a vetustez dos clássicos, patine incluída, porfio na compra de pelo menos um título por semana. Por vezes mais se neles algo me alicia. Pode ser o autor, a capa, uma crítica lida algures, o aspecto gráfico do tomo, o cheiro que emana… Mas, principalmente, o tamanho dos caracteres e o espaçamento entre linhas.

E porquê? Porque com o fluir das décadas, com a velhice a sitiar-nos, se ainda andamos “fininhos” da cabeça, outro tanto não sucede com a vista.

Os olhos, esses órgãos fantásticos de milhões de registos visuais, vão-se fatigando e, mesmo querendo com sofreguidão ler, esbarram assazmente num obstáculo de vulto: o tamanho das letras.

É lastimável que os livreiros, os editores, não tenham a percepção dos destinatários das obras que dão ao prelo. Da sua idade. Dos seus gostos. Para isso servem bem os algoritmos emocionais e sua ponderação/análise, que ainda não terão chegado a tantas, tão boas e esforçadas editoras.

 

 

Se assim fosse, talvez percebessem que a faixa etária dos 50, 60, 70… tem, em geral, dois atributos formidáveis: o tempo para ler e o poder de compra para adquirir novos livros.

Concomitantemente, não há bela sem senão, essas faixas etárias com o tempo a escorrer célere não melhoram a qualidade da sua visão. E se à custa das lentes dos óculos, esse adereço essencial, conseguem passar do “flou” ao nítido, certo é que o esforço para o fazer aumenta consideravelmente a tensão óptica, cansando-lhes a vista com facilidade.

Por isso, um editor consciente e conhecedor do mercado, deveria pensar que mais vale acrescentar umas páginas a mais, com os custos inerentes, alargando assim o seu público, do que cingir-se aos caracteres 9/10 e espaçamento de 1,0, numa mancha gráfica final aversiva e dissuasora do consumo.

Quantos livros não deixo de comprar quando, entusiasmado neles pego e, ao abri-los constato que a sua leitura exigiria um sacrifício para o qual já não há ousadia nem empenho.

O magnífico acto de envelhecimento exige de todos nós uma profunda reflexão e a consequente adaptação do “eu” aos condicionalismos que as circunstâncias etárias em si carreiam. Contudo, nunca deverá ser sinal ou pretexto para desistir, antes arte e ciência de procurar alternativas adequadas àqueles que hoje somos, tão distantes daqueles que ontem fomos, cientes de que, se menos ágeis, mais sábios e astutos a separar os escolhos das vidas longas e bem trilhadas pelo carreiral da vida fora.

 

Paulo Neto (sexagenário)

Director da revista literária “aquilino”.

Editor da plataforma de CS www.ruadireita.pt

(Não respeita o novo AO)

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Mais comentários

    1. Bom dia,
      Muito obrigado pelo seu comentário e por acompanhar o nosso trabalho.
      Bom 2021!

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